Análise de Aquarius

Aquarius (2016) – Kleber Mendonça Filho

Autor: Marcelo Cesar

Pensar as diferentes maneiras como espaço e espaço-tempo são usados

como palavra-chave nos ajuda a definir certas condições de possibilidade

para o engajamento crítico. Isto também nos abre caminhos para

identificarmos reivindicações contraditórias e possibilidades políticas

alternativas, além de nos incitar a considerar a maneira como moldamos

fisicamente nosso meio e o modo como o representamos e o vivemos.

(HARVEY, 2006 p. 27).

Harvey, no seu artigo: O Espaço como Palavra-Chave nos faz pensar o lugar que ocupamos no mundo hoje, onde o posicionamento pessoal, político e social está muito ligado à nossa localização espacial. Este tema se tornou muito frequente em vários filmes, e estamos sempre sendo chamados a pensar qual a nossa importância neste papel.


Este texto tem a proposta de discutir, através do filme Aquarius (2016) do pernambucano Kleber Mendonça Filho, como nos relacionamos com a questão espaço. Neste filme, ele trabalha com uma variedade de temas. São eles: memória, exploração imobiliária e resistência.


A abertura do filme nos remete a de outro filme do diretor: Som ao Redor (2012). Em Aquarius, uma série de fotografias em preto e branco de uma Recife com poucos prédios, dão o tom do longa: exploração imobiliária. Em Som ao Redor ele abre com uma série de fotos de canaviais, trabalhadores da lavoura e a casa grande na fazenda, é a força dos coronéis de engenho transferida para uma rua na zona sul de Recife. A primeira cena do filme é um travelling de duas crianças, uma de bicicleta e outra de patins. Elas se dirigem a um pátio, onde várias babás conversam, enquanto crianças brincam. O espaço como representação de uma classe trabalhadora, já quase extinta em países do primeiro mundo, mas que no Brasil, principalmente nesta Recife ainda estratificada, temos as patroas e suas empregadas domésticas. Tema também trabalhado nas relações personagem Clara e suas empregadas em Aquarius.


Sônia Braga, atriz muito bem escolhida por Kleber e que traz em si a memória do cinema nacional, faz o papel de Clara, uma escritora e jornalista especializada em música, moradora do Edifício Aquarius que resiste em vender o seu apartamento para a construção de um condomínio de luxo. A sua decisão em não vender está embasada na memória que o lugar lhe traz. Kleber, nos primeiros minutos do longa mostra a união, a alegria, a comemoração da vida de Clara com a família, neste momento ela acaba de vencer uma luta contra o câncer. Estas primeiras cenas servem para que o público entenda que existe uma construção sólida emocional pela negação da personagem de Sônia Braga em deixar aquele espaço e que torçamos para que ela consiga resistir.


Segundo Deleuze, “Pois a memória, para usarmos uma frase de Janet, é conduta de narrativa” DELEUZE, 2005, p. 67), e é com esta conduta que Kleber começa a contar a sua história. Diversas cenas de álbuns de fotografias nos remetem ao tema. É um recurso narrativo muito usado pelo diretor. Ainda sobre memória, toda a trilha sonora do filme é baseada em lembranças de músicas do passado, ferramenta de trabalho de Clara, uma jornalista aposentada. Assistimos a várias cenas muito bem dirigidas, com o tempo estendido, dando profundidade aos sentimentos das personagens, escutando Maria Betânia, Gilberto Gil, Taiguara e outros. Uma forma de buscar nas memórias e lembranças de quem também assiste ao filme. Kleber ganha o espectador pela emoção.


Retornando a questão espaço, o filme de Kleber trabalha a exploração imobiliária, que nos remete ao filme Banco Imobiliário (2015). Documentário do paulista Miguel Antunes Ramos, que estreou com muitos aplausos em janeiro deste ano no Cine Tenda em Tiradentes, sendo uma grande surpresa para toda a plateia presente. Ele aborda o cômico de forma incômoda e até absurda. O filme nos trás a dinâmica como os agentes imobiliários abordam os proprietários de imóveis que têm a possibilidade de vir a ser grandes negócios imobiliários. Situação também vivida em Aquarius por Clara e Diego, herdeiro da imobiliária que tenta comprar, a todo custo, o apartamento de Clara. Parece uma tendência do cinema contemporâneo discutir os espaços urbanos e nossas relações com este espaço. O homem do nosso tempo debate e questiona o lugar que vive e ocupa.


Kleber Mendonça mostra ter total domínio sobre a arte de fazer cinema, ele trabalha com cortes rápidos e secos, como flashes, pequenos trechos de cenas que são mostradas de forma rápida, sempre trazendo tensão e medo ao espectador. A sua câmera é segura e da mesma forma que trabalha em Som ao Redor, com elementos metafóricos, em Aquarius também estão presentes. O filme se transformou em um elemento de manifestação contra o atual presidente Temer a partir do momento que os atores e diretor mostraram cartazes com os dizeres “Fora Temer” na exibição do filme em Cannes deste ano.


Talvez devido a esta manifestação, sofreram repressão e não foram indicados a representar o Brasil no Oscar de melhor filme estrangeiro. Essas manifestações têm acontecido nas exibições nas salas de cinema. Nesta colcha de retalhos que é o filme, ele trata de política de uma forma leve e sutil, quando Clara cita o envolvimento de seu filho em situações ilícitas, mas o que mais se aproxima da atual situação é a sua resistência aos poderosos e ricos donos da construtora. Neste quesito, a obra de

Kleber se torna bandeira de resistência política.


O filme também passou pela polêmica da censura, devido a algumas cenas de sexo ao longo do filme.


Concluindo, Aquarius é uma grande expressão das angústias que atormentam o nosso tempo: espaço, memória e resistência e serve como reflexão para o homem contemporâneo. Estas questões só trazem mais visibilidade ao filme, criando uma áurea sobre o mesmo, fazendo mais pessoas irem ao cinema. Acho positivo, pois ganha o cinema nacional e ganha Kleber Mendonça Filho.