Nasci Pra Ti, Antes de Haver o Mundo (Resenha)

A Casualidade do Encontro (contém spoiler) Por Marcelo Cesar Silva


Quando saímos para um passeio, seja em uma viagem turística ou até mesmo na nossa cidade, nunca prevemos o que vai acontecer. O ato de se lançar ao desconhecido é o ato mais lindo da jornada humana na Terra. Assim, o homem descobriu terras, curas, receitas e seus pares.

“Nasci Para Ti, Antes de Haver o Mundo”: média metragem do diretor Lucas Marques, assistido por mim em 2019 me toca profundamente por tratar de forma sensível sobre este encontro casual.

O filme inicia com os “gritos” das gaivotas tão presentes na cidade do Porto em Portugal. Uma fotografia em P&B nos enche os olhos com uma vista panorâmica da belíssima cidade, com o Rio Douro, que nasce na Espanha e desce até Porto e a cidade de Vila Nova de Gaia. É um rio belíssimo e com estes frames iniciais, o filme já te segura por estas primeiras cenas. O som das gaivotas, te transporta para tal cidade, principalmente para quem já teve o prazer de visitá-la.


É assim os primeiros 58 segundos do filme, a cidade do Porto sendo apresentada por panorâmicos esplêndidos. A beleza do que é mostrado na tela é emoldurado pelo som de um adágio, somos apresentados, ao que parece ser um depoimento de duas jovens mulheres, que se descrevem, em um encantamento único, como se nada mais existisse no mundo, a não ser encontro destas duas pessoas.

Uma cena de sedução e enlaçamento sexual invade a tela e nós somos apresentados a estas duas personagens, antes do título aparecer na tela: “Nasci Para Ti, Antes de Haver o Mundo”. 1 minuto e 30 segundos de pura poesia. Uma verdadeira ode ao cinema de arte, aqui você deslumbra toda a riqueza, o cuidado e a delicadeza deste cineasta que orquestra som, imagem e poesia. O filme só está começando.

No decorrer da história as duas personagens, brilhantemente interpretadas pelas atrizes Júlia Moraes (Geovana) e Vitória Raciane (Nico), dialogam em uma cumplicidade de quem se já conheciam há muito tempo. A química entre as atrizes é inquestionável. No diálogo a impossibilidade da continuidade do momento de amar, a poesia de Fernando Pessoa, que dá título ao filme, preenche estes espaços. As duas se encontraram casualmente nas ruas do Porto e uma delas está de partida para estudar em uma Escola de Artes de Paris.

A forma de contar o encontro entre estas duas personagens é permeado por depoimentos e diálogos, como se estivéssemos em um conto de ficção e ao mesmo tempo um documentário. Uma quebra ao formalismo na linguagem cinematográfica. O diretor nos remete aos filmes franceses da Nouvelle Vague, com cortes repentinos, a câmera passeia pelo ambiente, sem qualquer pretensão de estabelecer um ângulo ou uma posição. O tema tratado abrange questões pessoais e a história é um retalho na vida destas personagens.


Aos 10 minutos do filme, em meio a citações de Sartre, cultura underground e Philippe Garrel as duas conhecem os seus nomes: Nico e Geovana. Mas como a própria Geovana, libertária e independente cita: O que importa os nomes, não é mesmo?

Nico se recusa a sair daquele quarto, a tela explode com o retorno do adágio, as ruas do Porto novamente aparecem e uma sucessão de obras de Caravaggio, Botticelli, Victor Meirelles e Nouvelle Vague aparecem tentando nos mostrar que talvez só a arte daria conta daquele momento. Na representação dos sentidos o diretor “brinca” com o próprio filme: uma claquete em cena – ação.

La grande finale, o reconhecimento do encontro de duas almas, que ao longo do filme você nem lembra mais se são duas mulheres ou dois homens ou um homem e uma mulher, neste momento do filme isto é só um detalhe. É uma história de um encontro casual de dois seres que se amam e se apaixonam em um momento único de pertencimento. Um conto universal. A despedida, a possibilidade remota da continuidade deste momento e de forma magistral o diretor quebra a quarta parede e a Geovana nos diz a sentença final: Ela não vai entrar.


Não vai entrar onde, meu amigo. Elas já entraram e escancararam as portas do nosso coração: “Nasci Para Ti, Antes de Haver o Mundo”.


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